No grupo de mensagens
O almoço dos oitenta anos da vó
“Então fica combinado dia doze?”, escreveu a tia Vera, e o grupo da família respondeu em menos de um minuto. O tio Jorge mandou um joinha. A mãe de Cecília mandou três. Alguém postou uma foto da mesa do ano anterior, a comprida, perto da janela, com o peixe assado já pela metade.
Cecília leu tudo no metrô e não digitou nada. Estava naquele grupo havia seis anos e devia ter umas quarenta mensagens no nome dela, quase todas “Eu levo os brigadeiros” ou “Cheguei bem”. Não era bem timidez. Doze pessoas falando ao mesmo tempo não deixavam espaço para o tipo de frase que ela gostava de escrever, daquelas que depois dava para sustentar.
O que prendia a atenção dela era a prima Bianca. Bianca costumava responder em parágrafos, com piadas sobre quem ia sentar ao lado de quem. Hoje tinha escrito “pode ser” às 9h14 e “o que der certo” às 9h31, as duas vezes sem pontuação. Ninguém mais pareceu reparar. O grupo já discutia se a avó ainda dava conta da escada do restaurante.
Cecília começou uma resposta no grupo: “Bianca, o dia doze está bom mesmo pra você?” Ficou olhando. Feita na frente de todo mundo, a pergunta obrigaria Bianca a dizer que sim. Apagou e abriu uma conversa privada. “Você não parece você hoje de manhã. Não precisa explicar. Estou por aqui à noite se quiser conversar.” Trocou “conversar” por “companhia”, leu duas vezes e enviou antes de chegar à estação dela.
No grupo da família acrescentou uma linha, para o silêncio não preocupar a mãe: “Dia doze está ótimo. Eu levo os brigadeiros.” Chegaram quatro joinhas. O celular vibrou de novo quando ela pisou na plataforma, e desta vez era só Bianca. “Como é que você sempre sabe”, dizia. “Dia doze era o dia em que eu ia me mudar pra casa do Leonardo. Não contei pra ninguém que acabou.” Cecília ficou parada enquanto o metrô partia. “Então conta pra mim primeiro”, digitou. “Te ligo às oito.”