No grupo de mensagens
A porta do prédio, terceira semana
“Porta ainda quebrada. Qualquer um entra.” Era o térreo, às 7h12. Às 7h40 o grupo dos moradores tinha mais dezenove mensagens, entre elas duas fotos da fechadura e a história de uma bicicleta roubada. Marina leu tudo no ônibus. Sentia as queixas da manhã tomando a mesma forma das da semana anterior: todo mundo irritado, ninguém encarregado.
“Quem ligou de fato para a administradora?”, escreveu. “Nome e data, por favor.” Silêncio. Depois Luciana, do 302, que quase nunca escrevia: “Quem sabe, até consertarem, a gente trava a porta de dentro e põe um aviso com um telefone pra ligar?” “Isso não resolve”, digitou Marina, e seguiu adiante. Desceu do ônibus, parou na calçada do escritório e ligou ela mesma para a administradora às 8h05. Às 8h20 estava de volta ao grupo.
“Resolvido. O técnico vem quinta, entre 10h e 12h. Alguém precisa abrir para ele. Seu Antônio, o senhor mora no térreo e fica em casa de manhã. Pode ficar com a quinta? Se ele não aparecer, eu cobro a administradora na sexta às 8h.” Seu Antônio mandou um joinha. Quinze minutos tinham bastado para o que três semanas de mensagens não fizeram, e ela ficou satisfeita, e um pouco impaciente com todos eles.
No almoço releu a conversa para ver se não tinha deixado passar nada. Tinha. Faltavam três dias para quinta. Por três noites a porta continuaria aberta, e a única ideia que dava conta dessas noites era a de Luciana, que ela tinha achatado em três palavras sem ler direito. Abriu um documento em branco e já estava com o aviso pela metade, telefone e tudo, quando se deu conta. A ideia era de Luciana.
“Luciana, fui rápida demais hoje cedo. A sua sugestão é a certa até quinta. Você escreve o aviso? Eu imprimo no trabalho e levo à noite.” A resposta demorou. “Já escrevi. Não sabia se alguém queria.” “Eu quero. Manda.”