No grupo de mensagens
Um cartão de despedida para o seu Geraldo
“Alguém pensou na sexta?”, escreveu Lorena no grupo do trabalho às 7h50. Sexta seria o último dia do seu Geraldo depois de vinte e seis anos na contabilidade, e até ali o único plano era não haver plano.
Em uma hora ela tinha um. Pediu a Rosângela, que desenhava lindamente e nunca tocava no assunto, que fizesse o cartão. Marcos escolheria o presente, já que era ele quem almoçava com o seu Geraldo e sabia que ele restaurava rádios antigos. A Yasmin, a funcionária mais nova, que não tinha digitado uma palavra no grupo desde que entrou, escreveu direto: “Você trabalhou numa confeitaria, não foi? Diz pra gente que bolo encomendar? Confio mais no seu gosto que no meu.” Yasmin respondeu em quatro minutos, com três opções e uma observação sobre nozes.
Todo o resto ficou com Lorena, porque ela tinha se oferecido. Recolher o dinheiro. Cobrar as nove pessoas que disseram “claro, com certeza” e não pagaram. Reservar a sala, pedir pratos emprestados. Na quinta, às onze da noite, estava cortando fita, e o relatório dela para segunda continuava intocado dentro da bolsa.
A sexta correu bem. O seu Geraldo segurou a válvula de rádio que Marcos tinha garimpado e por um momento não conseguiu falar. As pessoas elogiaram o cartão e o bolo de nozes citando os nomes. Rosângela ficou vermelha. Perguntaram duas vezes a Yasmin onde tinha aprendido confeitaria, e ela ficou conversando até muito depois da hora em que normalmente teria escapulido.
Depois o grupo encheu. “Que cartão, Rosângela!” “Marcos, aquele presente!” “Yasmin, o bolo!!” Lorena foi lendo no ônibus, sorrindo, e continuou rolando a tela um pouco mais do que precisava. Ninguém tinha agradecido a quem fez a lista. Doeu mais do que ela admitiria a qualquer pessoa, e ficou irritada consigo mesma por estar contando. Digitou “Que bom que deu tudo certo”, e depois acrescentou uma segunda linha que normalmente não mandaria: “Deu bastante trabalho, pra ser sincera. Da próxima vez eu ia adorar dividir a organização com alguém. Quem topa?”