No grupo de mensagens
Jantares para o apartamento doze
Flávio tinha criado o grupo numa terça, onze minutos depois de ver a dona Ivone, do apartamento doze, sendo ajudada a sair de um táxi com a perna engessada. Chamou o grupo de Jantares da Ivone, adicionou nove vizinhos e postou uma tabela: um nome por noite durante três semanas, com a observação de que ela não comia peixe e adorava qualquer coisa com coentro. Pôs o próprio nome nos dois domingos, porque era no domingo que as pessoas esqueciam.
Mantinha o grupo aquecido como tem gente que mantém um fogão aceso. Quando um estudante escreveu, tímido, que só sabia fazer macarrão, Flávio respondeu “Macarrão é perfeito, ela me contou que está com saudade”, e em seguida bateu na porta da dona Ivone para ter certeza de que era verdade. Postou uma foto do caldo verde de quinta. Catorze corações.
Aí, na sexta, o seu Armando escreveu: “Este grupo manda mensagem demais. Uma lista na porta faria o mesmo serviço. Silenciando.” Flávio leu no corredor. O rosto esquentou, como se aquilo tivesse sido dito em voz alta na frente de todos, o que de certo modo tinha sido. Subiu a conversa e contou as próprias mensagens. Dezenove em dez dias. Agora parecia muito.
Digitou “Desculpa, pessoal, vou maneirar!” e apagou, porque soava magoado. Digitou “Boa ideia a da lista” e apagou também; lista em porta não diz a um estudante tímido que macarrão é bem-vindo. No fim não postou nada, e sentiu esse nada durante o jantar inteiro. “Você acha que eu falo demais no grupo do prédio?”, perguntou à mulher. “Eu acho que a dona Ivone come bem há dez dias”, disse Mônica.
Às nove o estudante escreveu para ele no privado. “Ela pediu meu macarrão de novo. Obrigado por ter me colocado no grupo.” Flávio leu três vezes. Depois imprimiu a escala, colou na porta de entrada para o seu Armando e voltou ao grupo para lembrar o coentro a quem cozinhava no sábado.