No grupo de mensagens
Um cartão com uma garça
“Quem está cuidando do cartão da despedida da Marlene??” A mensagem de Sandro caiu no grupo da clínica às 12h04 e juntou duas carinhas dando de ombros e um “eu não, foi mal”. Vanessa leu na recepção, com uma colherada de sopa a meio caminho da boca. O cartão já estava na bolsa dela. Tinha comprado no sábado, uma aquarela de uma garça, porque Marlene mantinha um calendário de garças ao lado da autoclave, e isso havia anos.
Digitou: “Eu tenho um! Fica na primeira gaveta da recepção a partir das 14h, passem para assinar quando der.” Depois falou da vaquinha: um envelope, na mesma gaveta, sem valor definido.
O grupo passou a discutir quem levava o quê na sexta. Mais acima, quase soterrada, havia uma mensagem do enfermeiro novo, Erick, enviada às 11h58: “Tudo bem se eu levar alguma coisa sem castanhas? Sou alérgico.” Ninguém tinha respondido. Seis pessoas tinham escrito depois. Vanessa o imaginou olhando o celular na sala dos fundos e vendo a conversa passar por cima dele. Respondeu direto àquela mensagem, “Claro que sim, e eu cuido para que tudo esteja identificado”, e depois escreveu para ele no privado contando onde ficava a padaria boa.
Na sexta, Marlene chorou diante da garça. “Sandro, você lembrou!”, disse, porque por acaso era Sandro quem segurava o cartão quando ela entrou. Sandro disse “Foi a equipe toda” e sorriu. À noite o grupo se encheu de fotos, e alguém escreveu: “Arrasou, Sandro, que despedida linda.”
Vanessa digitou “Na verdade quem escolheu o”, e parou. Na caixinha de texto aquilo parecia mesquinho. Ia deixar Sandro sem graça e não mudaria nada na tarde de Marlene, que era o que importava. Apagou letra por letra. Mandou um coração. Depois pôs o celular de tela para baixo, com um pouco mais de força do que pretendia, e foi regar o manjericão.