No grupo de mensagens
Quarenta e uma mensagens e nenhuma data
Quando Roberto terminou a louça, o grupo chamado 70 do Pai tinha quarenta e uma mensagens não lidas. Leu todas, na ordem, em pé junto à pia, com o pano de prato ainda no ombro. A irmã, Denise, queria uma surpresa. O irmão, Maurício, queria um restaurante, qualquer restaurante. Alguém tinha postado a foto de um bolo em forma de barco de pesca. Ninguém tinha falado em data.
Roberto abriu o calendário. O aniversário do pai caía numa quarta, então a festa seria no sábado seguinte, dia dezenove, porque no sábado anterior a tia tinha a cirurgia do olho, e ela avisara ali mesmo, naquele grupo, nove dias antes. Subiu a conversa para confirmar. Depois digitou: “Sábado, dia 19, 13h, na minha casa. Eu faço a carne de panela e o nhoque. Denise: bolo. Maurício: buscar a tia Lourdes às 12h15, ela não consegue subir a escada do metrô. Respondam sim ou não até sexta.” Releu uma vez à procura de erros e enviou.
Três joinhas chegaram em menos de um minuto. Depois Denise escreveu: “A gente não pode fazer uma coisa diferente este ano? Um passeio de barco? Ele nunca ia imaginar.” Roberto considerou o barco. O pai tinha passado mal numa balsa em 2011; ele se lembrava do rosto cinzento e do saco de papel. Digitou “Ele passou mal na balsa em 2011” e enviou também. Era verdade. E ficou ali na tela com cara de porta se fechando.
Denise sumiu. Mais tarde escreveu só para ele: “É que eu cansei de fazer tudo sempre igual. E cansei no geral, pra falar a verdade.” Ele começou a responder “Você podia tirar folga na sexta”, apagou, e tentou “O que está te cansando?”, que parecia linha de formulário. Apagou também.
No fim escreveu: “Esquece o bolo. Eu encomendo. Chega ao meio-dia e senta.” Depois acrescentou uma linha à própria lista: bolo, encomendar até dia 12.