No grupo de mensagens
O que Miguel escreveu embaixo do poema
Miguel estava na metade de um prato de macarrão frio quando o grupo da antiga turma da escola, normalmente morto por meses, acendeu dezenove vezes seguidas. Rodrigo tinha achado uma coisa. Era o print de um poema que Clarice, ex-colega deles, postara em modo público: oito versos sobre as mãos do pai e uma oficina que cheirava a pinho.
“Alguém avisa a comissão do prêmio de literatura”, escreveu Rodrigo. Juliano acrescentou uma carinha chorando de rir. Depois veio uma versão do poema com todos os substantivos trocados por “linguiça”, e por um tempo o grupo foi só isso, linguiça atrás de linguiça, com gente de quem Miguel não tinha notícia havia anos aparecendo só para entrar na onda.
Ele leu o poema de verdade duas vezes. Não era um bom poema, tecnicamente. As quebras de verso eram esquisitas e “eternidade” devia ter sido cortada. Mas o terceiro verso, o da serragem no punho de uma camisa que ninguém lavou desde então, tinha lhe apertado a garganta em cima do macarrão. Clarice tinha falado a sério. A ofensa toda era essa.
Normalmente ele teria deixado passar. Silenciava aquele grupo a maior parte do ano exatamente para isso, e não gostava de ser a pessoa que esfria o ambiente. Digitou “na verdade é meio que”, e apagou. Depois veio “pô, gente”, que soou como professor, e apagou também. Aí Juliano postou a foto de perfil de Clarice com uma coroa desenhada em cima, e alguma coisa em Miguel ficou parada e nítida.
O que mandou foi curto. “Dessa eu tô fora. O pai dela morreu no ano passado e ela escreveu uma coisa verdadeira sobre isso. Prefiro isso a tudo o que a gente falou aqui hoje.” Pôs o celular no parapeito da janela e terminou o macarrão com o coração batendo forte. Vinte minutos depois havia duas respostas. Rodrigo: “nossa, tá bom.” E, no privado, de uma menina chamada Samanta com quem ele mal tinha falado na escola: “Obrigada. Eu queria dizer isso e não disse.” Abriu a página de Clarice e, embaixo do poema, escreveu: “O verso da serragem. Não sai da minha cabeça.”