No grupo de mensagens
A abraçadeira atrás da máquina
O grupo da família tinha quarenta e uma mensagens novas quando Renato saiu do banho. Rolou até o começo. A máquina de lavar do pai tinha deixado uma poça no chão da área de serviço, e desde as oito da manhã a tia Zélia, a irmã dele, Mara, e dois primos discutiam o assunto. Zélia achava que a máquina tinha quinze anos e devia ser trocada. Mara tinha escrito três parágrafos compridos sobre como o pai nunca pede ajuda.
Renato leu tudo no corredor. Ninguém tinha dito de onde vinha a água. Digitou: “Pai, na frente ou atrás? Manda uma foto do chão.” Depois deixou o celular na prateleira e fez ovos.
A foto chegou onze minutos depois, meio tremida, com o chinelo do pai num canto. Água debaixo do pé traseiro esquerdo. Não era a borracha da porta, então. Provavelmente a mangueira de saída, ou a abraçadeira que a prendia. Começou a digitar “É uma abraçadeira, ninguém precisa comprar nada” e apagou, porque ainda não tinha visto a abraçadeira e não gostava de errar por escrito. Mandou: “Não encomendem nada. Chego às 4.”
Mara escreveu para ele em separado. “Faz uma semana que ele passa pano naquele chão sem contar pra ninguém. Uma semana, Renato.” Ele leu duas vezes. Parecia uma informação sobre a cronologia, então respondeu: “Então o vazamento é lento. Bom sinal.” Ela devolveu um ponto final, sozinho. Ele ficou um tempo olhando para o ponto e não conseguiu descobrir o que aquilo queria dele.
Às quatro estava de joelhos atrás da máquina, com uma lanterna entre os dentes. A abraçadeira tinha enferrujado até partir. Trocou por uma do pote que levava no carro, rodou um ciclo curto e ficou vendo a mangueira continuar seca. O pai trouxe café e ficou na porta, também sem dizer grande coisa. Renato tirou uma foto do chão seco, postou no grupo sem legenda e ficou para o jantar.