No grupo de mensagens
Quarenta e sete mensagens não lidas
Quando Helena saiu da piscina, o grupo da família marcava quarenta e sete mensagens não lidas, e as quarenta e sete tratavam do aniversário de oitenta anos da avó. Leu tudo em pé no vestiário, o cabelo pingando na tela. A tia Sônia queria o restaurante à beira do rio. O primo Vítor queria uma festa surpresa no apartamento. Ninguém tinha falado em data.
Voltou ao começo e leu de novo, mais devagar, do jeito que lia contratos. Lá pela vigésima mensagem o padrão ficou claro. Cada um respondia a quem tinha escrito logo acima, e por isso a conversa girava em torno das mesmas três perguntas: onde, quando, quem paga os músicos. A mãe tinha escrito “o que for mais fácil pra todo mundo” quatro vezes. Helena começou a digitar. “Faz dois dias que isso está rolando e nada foi decidido.” Era verdade, e faria a tia Sônia passar uma semana sem dar um pio. Apagou e abriu o bloco de notas.
Vinte minutos depois, no ônibus, mandou uma única mensagem. “Proposta. Sábado, dia 14, almoço às 13h, porque a vó fica cansada à noite e o ônibus do Vítor chega às 11h40. O restaurante do rio tem um salão nos fundos para 22 pessoas. Liguei, está livre nesse dia, e eles seguram a reserva até quinta. Sem surpresa. Ela não gosta e disse isso no ano passado. Se o restaurante não der certo, o apartamento da tia Sônia é o plano B. Preciso de um sim ou de um não até quarta à noite.”
Depois pousou o celular no joelho, com a tela para baixo. O que tinha deixado de fora era a gravura emoldurada da casa antiga da Rua das Palmeiras, aquela de que a avó falava todo inverno. Já estava encomendada. Chegaria no dia 10, com quatro dias de folga.
O celular vibrou. Vítor: “Sim, senhora general.” Depois a tia Sônia: “Tá bom. Mas o bolo quem leva sou eu.” Helena acrescentou uma linha às notas: bolo, Sônia, confirmar tamanho. Começou a digitar “Fico feliz que a gente esteja fazendo isso por ela”, deixou o polegar parado em cima da frase e, no lugar dela, mandou um joinha.