No grupo de mensagens
Quarenta e uma mensagens sobre uma laje
A pergunta de Laís era simples, e ela a fez às 18h02: “Quem leva o projetor no sábado?” Às 18h20 o grupo tinha quarenta e uma mensagens novas. Trinta eram do Gabriel.
Ele tinha começado bem. “EU, posso pedir pro meu primo”, escreveu, e pretendia mesmo pedir. Mas perguntar do projetor o fez imaginar o filme, e o filme o fez imaginar o muro do quintal da Laís, e o muro, sinceramente, era pequeno demais. “Peraí. PERAÍ. E a laje do meu prédio?” Mandou uma foto da laje com setas desenhadas. Propôs um tema (filmes em que alguém perde um trem). Ocorreu-lhe um nome para o evento, então rebatizou o grupo de “Cine Varal” e adicionou o vizinho, Paulo, que ninguém conhecia, porque Paulo tinha boas caixas de som e parecia sozinho. Por vinte minutos foi a pessoa mais feliz da cidade.
Os outros pegaram a febre, como quase sempre. Sofia disse que levava almofadas. Kauê, que raramente escrevia, postou uma lista de filmes de trem. Paulo mandou um aceno tímido e uma foto das caixas de som.
Então Laís escreveu de novo. “Amei tudo isso. Ainda preciso saber do projetor. Além disso, faz duas semanas que você ficou de confirmar a data com o síndico.” Sem ponto de exclamação. Gabriel ficou muito tempo olhando para aquele ponto final. O estômago virou. Ela estava brava; estava cansada dele; provavelmente todos estavam, e tinham um segundo grupo, sem ele, em que diziam isso. Digitou um parágrafo que começava com “Mil desculpas, eu sou o pior” e seguia explicando como tinha sido a semana. Era quase tudo ruído.
Apagou e, no lugar, fez as duas coisas chatas. Ligou para o primo, que disse sim. Bateu na porta do síndico, de meia. Onze minutos, as duas resolvidas. “Projetor: confirmado, busco na sexta. Laje: liberada até as 23h. Desculpa a demora, Laís.” Ela devolveu uma única estrela dourada. Ele tirou um print.