No grupo de mensagens
A discussão da chaleira
Começou quando Danilo escreveu que não dá para fazer um jantar de verdade num quarto que só tem uma chaleira elétrica. “Cuscuz marroquino”, digitou Vinícius em segundos. “Ovo, com paciência. Verdura, escaldada. Macarrão instantâneo, óbvio. Já são quatro pratos e eu ainda nem me esforcei.”
Ele estava num banco em frente à lavanderia, e a meia hora seguinte foi a melhor parte do dia. Danilo disse que deixar de molho em água quente não era cozinhar. Vinícius pediu que ele definisse cozinhar. Danilo disse calor aplicado ao longo do tempo, e Vinícius disse que isso era uma chaleira, obrigado. Quando Danilo enfim cedeu, com um cansado “tá, tecnicamente”, Vinícius sentiu a graça escorrer da questão e trocou de lado na hora. “Se bem que você tem razão, jantar não seria. Jantar precisa de uma panela e de alguma coisa que dê um pouco errado.”
Quatorze mensagens, todas dele. Em algum ponto no meio, Luana tinha escrito: “Não consegui o apartamento. Já é o terceiro.” Ele respondera sem diminuir o ritmo: “Está claro que o destino quer você num quarto só com uma chaleira.” E seguiu em frente. Só quando a secadora apitou ele notou o que faltava. Luana respondia a tudo. Mandava um solzinho para quem comentava o tempo. Embaixo da piada dele não havia nada.
Subiu a conversa e leu de novo a mensagem dela. Luana dormia no sofá da prima desde março. Abriu uma conversa privada. “Desculpa, foi uma piada ruim”, escreveu, e ficou olhando. Aquilo obrigava a amiga a consolá-lo. Apagou. “Três seguidos é uma droga, e eu passei por cima disso. O que deu errado nesse? E quando é a próxima visita? Eu vou junto e discuto com o corretor.”
A resposta levou alguns minutos. “Quinta às seis. Olha, quero sim. Por favor.” “Fechado.” Pôs na agenda ali mesmo, porque se conhecia. De volta ao grupo, postou uma foto que tinha tirado no inverno passado e guardado exatamente para uma ocasião dessas: um ovo, dentro de uma chaleira, com ar de dúvida.